07 outubro 2005

Farsa ecológica



Por Boris Feldman
boris.feldman@uai.com.br

A importação de pneus usados é uma vergonha (embora uma solução ecológica caída do céu para os países que os exportavam...) e foi em boa hora que a Câmara de Comércio Exterior e o Ministério do Meio Ambiente decidiram interrompê-la.

Mas, se é a importação deste lixo é ilegal, como era praticada?

Porque alguns empresários do setor, sr. Francisco Simeão à frente, se aproveitavam de não haver uma lei específica, mas apenas resoluções, para conseguir sua libe ração por meio de liminares.

O sr. Simeão é o dono da BS Colway, a maior empresa de remoldagem de pneus do Brasil. Um empresário tão esperto que conseguiu convencer Roberto Requião, governador do Paraná, a defender sua causa em comerciais de tevê. Não a importação de lixo, mas o programa Rodando Limpo instituído pela BS Colway.

Aí está a esperteza de Simeão: ele de um lado importa milhões de
pneus sucateados no primeiro mundo. Do outro, faz uma primorosa campanha institu cional para recolher e reciclar pneus velhos abandonados por motoristas e borracheiros em lotes vagos.

O Simeão é tão esperto que só aparece para defender a causa ecológica,
acusando as grandes fabricantes (Pirelli, Goodyear etc) de não estarem
cumprindo as exigências de reciclagem de pneus. É uma forma inteligente de desviar a atenção do público e das autoridades para esta monumental sujeira ecológica provocada pelas importações de usados. E os números assustam: são cerca de oito milhões de pneus descarregados anualmente no Brasil. Destes, são comercializados cerca de dois milhões. E vem a pergunta: onde vão parar os seis milhões restantes?

Não há uma resposta muito objetiva, mas boa parte desta sucata vai parar em pequenas lojas e borracharias que os revendem para motoristas sem condições de comprar pneus novos. Lixo do primeiro mundo é bom negócio no terceiro.

Perigo – Este é o mal-explicado lado ecológico da questão. Mas tem também o aspecto técnico, da qualidade dos remoldados. A BS Colway foi obrigada a tirar do ar suas duas campanhas publicitárias: a que acusava os presidentes das fábricas de pneus de fora-da-lei e também a de seus pneus remoldados, esta considerada propaganda enganosa.

Por que enganosa?

Porque não explicava que se tratavam de remanufaturados, levando o
consumidor a imaginar que estava comprando pneus novos. Além disso, apesar do processo de remoldagem ter sido (questionavelmente) certificado pelo Inmetro , os pneus assim produzidos oferecem uma série de riscos. O primeiro deles é que um jogo de quatro pneus remoldados iguaizinhos por fora podem ter carcaças totalmente diferentes. Uma vinda da Europa projetada para um pneu de neve, outra dos EUA usada em off-road, outra utilizada numa van japonesa e a quarta num Doginho Polara. Imagine um automóvel numa curva fechada de estrada ou sendo freado bruscamente com quatro pneus produzidos sobre carcaças completante diferentes: é claro que vai ocorrer um desequilíbrio de conseqüências preocupantes.

Outro problema dos remoldados é que o processo (ao contrário dos recapados ou recauchutados, que conservam a identificação original da parede lateral) elimina todas as informações do pneu original, não se sabendo mais a velocidade e carga para que foi projetado, nem sua data de fabricação.

No Brasil tudo é possível: remoldados mal-explicados, quebra-matos proibidos na Europa, engates bola que rasgam a canela do pedestre, fluidos de freio que não são fluidos nem freiam e agora os cursos de primeiros socorros condenados pelos médicos. Vale tudo por dinheiro: é só não se esquecer do acerto mensal (é mensalão que chama?) com o tesoureiro-chefe.


FONTE: CORREIO WEB
http://www2.correioweb.com.br/cbonline/vei...nas/col_pap.htm,

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